Mas você chegou até aqui de bicicleta, SOZINHA?

Mas você chegou até aqui de bicicleta, SOZINHA?
-Não, viajo com meu marido e meus dois cachorrinhos, respondo.
-“Aaaah, táaaaa!” Então tem um homem com você!

E esse diálogo tem se repetido por inúmeras vezes nos últimos um ano e meio. E essa é a resposta que eu sempre gostaria de dar:

Olha, estou bastante incomodada e chateada com esse tipo de comentário recorrente. Afinal, eu cheguei até aqui com as minhas próprias pernas, única e exclusivamente pelo meu esforço e minha capacidade. Enfrentei todo tipo de clima, ventos que me empurravam contra e que me obrigavam a fazer um esforço descomunal que esgotava minhas forças. Atravessei a Cordilheira dos Andes com subidas incessantes e não desci uma vez se quer da bicicleta para empurrá-la. Subi pedalando o tempo todo! Percorri estradas perigosas e movimentadas, sem acostamento. Tive que saber lidar e enfrentar meus medos e preocupações.

Faço as manutenções na minha bici, troco pneu e não me importo em sujar minhas mãos limpando a corrente. Fiquei vários dias sem banho. Tive que fazer xixi e cocô no mato. E lembrando que ainda tenho um “plus” a cada 5 dias por mês: em que estou com TPM, com o corpo inchado e pedindo sossego. O que nem sempre foi possível. Pedalei mesmo me sentindo indisposta. Não fraquejei em nenhum momento!

Estou acompanhada sim. Mas eu carrego sozinha minha bicicleta de quase 50 quilos. Costumo dizer que o bom de viajar de bicicleta é que, ao mesmo tempo em que estamos juntos, estamos separados. Porque ninguém leva o outro. Se um não pedalar e ficar parado, o outro segue sozinho. Estamos nessa juntos, mas cada um com a sua conquista, com nossas individualidades. Sabemos o que enfrentamos para chegar até aqui. E eu tenho um baita orgulho disso! Viajar de bicicleta não é oba-oba. Não é uma fábula de contos bonitos. Às vezes a cabeça nos arrasa e o corpo, mesmo estando sadio, não responde. Também tive que superar meu psicológico para poder seguir em frente.

Também já me perguntaram, por várias vezes: “porque não coloca um motor na sua bicicleta para ficar mais fácil para você?” E eu fico me perguntando o porquê essas pessoas quererem optar pelo mais fácil? E quem disse que preciso ou quero o mais fácil? Até porque, se quisesse optar pelo mais fácil não seria um motor para minha bicicleta que resolveria a questão. Eu estaria viajando de avião…

Posso afirmar que hoje estou mais forte, mais segura, consciente de minhas escolhas e de minha capacidade. E ninguém tem o direito de desmerecer ou minimizar tudo que superei para chegar até aqui. Nós precisamos mudar esse pensamento de que a natureza da mulher é ser sensível, frágil, dependente e incapaz. Mulheres ou homens, não importa: somos todos seres humanos! E como tais, tod@s nós somos fortes e perfeitamente capazes de tudo o que nos propomos a fazer.

Essa é a resposta longa. Se você gostaria de ver a resposta resumida, é só dar uma olhada na foto que ilustra esse post. 😊

 

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  • Ada Cordeiro

    Linda, maravilhosa, capaz … você resumiu muito bem essa situação triste que enfrentamos, por estar ou não acompanhada de “HOMENS”.
    Eu recebia as mesmas perguntas…todos os dias…e as vezes se estava acompanhada de uma amiga a pergunta era: Mas vcs viajam SOZINHAS? Como assim? Viajamos juntas….mas o fato de não ter uma figura masculina pras pessoas era inconcebível…
    Temos que continuar seguindo nossos passos, nossos sonhos, mostrando todos os dias que SIM…somos capazes de fazer e estar onde desejarmos!!! <2 Um beijo no coração!!!