E foi dada a largada! 26 horas de busão! – #02

De Uberlândia a Blumenau de Ônibus

Todos os equipamentosDurante as últimas semanas antes do início da viagem, decidimos deixar os nossos equipamentos já dentro dos alforjes. Aí, de vez em quando, a gente abria e conferia o que estávamos levando. E, toda vez, encontrávamos alguma coisa que poderia ser dispensada para diminuir o peso e o volume. Era incrível, porque, se abríssemos os alforjes 10 vezes, em todas elas iríamos tirar alguma coisa de lá de dentro. Mesmo que na vez anterior já tivéssemos a certeza de que: “pronto, agora chega! Não dá pra tirar mais nada, tudo é essencial”.

Como, durante todo o tempo que antecedeu a viagem, o Daniel estava trabalhando e fazendo mestrado, não sobrou muito tempo para dedicarmos à preparação da viagem. Mesmo assim, estávamos o tempo todo respirando a viagem, sempre tentando preparar as coisas. No final das contas, acabou que não conseguimos nos organizar para treinar nas bicicletas. Na verdade, treinamos apenas 4 vezes, praticamente sem peso. A maior distância percorrida nesses treinos foi 14km, o que, de bicicleta, não é quase nada. Com as bicicletas carregadinhas, com todos os equipamentos em cima, não treinamos. Apenas demos uma volta no quarteirão alguns dias antes de sair.

 

Daniel na RodoviáriaNo dia anterior à partida, já tínhamos desmontado e embalado as bicicletas com papel bolha e uma generosa quantidade de fita adesiva. Guardamos o reboque junto com outras coisas dentro de uma caixa. Os alforjes estavam abarrotados. Guardamos os equipamentos maiores e que iriam fora dos alforjes em uma sacola de sacoleira. Algumas coisas que precisávamos à mão, levamos com a gente em uma mochila. Mesmo assim, no dia da partida ainda sobraram algumas coisas de fora e tivemos que levá-las em uma outra caixa. Então era isso: 2 bicicletas embrulhadas, 2 caixas de papelão, um sacola gigantesca e quatro alforjes. Nove volumes no total. Fora o Ozzie e a Maya, que iam nas suas respectivas bolsas de transporte. Se não tivéssemos montado tudo isso nas bicicletas antes, não acreditaríamos que caberia. Na verdade, mesmo tendo testado antes, era espantoso pensar que levaríamos tudo aquilo nas bicicletas.

 

O Grande Dia

Na tarde do dia 29 de dezembro de 2016, nossa jornada rumo à realização de nosso sonho começou. Na noite anterior, a ficha ainda não tinha caído. Conseguimos dormir bem e tranquilos. Mas quando o dia amanheceu, parece que tudo que estava adormecido veio à tona.

Eveline - Pela Vida AforaParece que eu estava em estado de stand by e que agora botãozinho do power acendeu. Me senti bastante ansiosa, com medo e com receio de começar uma vida completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido. Estava deixando de lado a convivência com minha família, o conforto e segurança de casa, banho quente e tudo mais que temos em nosso cotidiano. Será que realmente todo o esforço e dedicação que tivemos para preparar tudo valeria a pena? Sim, isso chegou a passar pela minha cabeça. Daí eu percebi que a razão estava querendo me sabotar. É óbvio que o mais cômodo é mais fácil, é bom estarmos na zona de conforto. É mais seguro. Mas estava querendo algo que me preenchesse mais, algo que me sentisse uma pessoa mais útil para o mundo e que me fizesse sentir mais viva. E é claro que vale todo o esforço!

Daniel - Pela Vida AforaEstava muito animado e ansioso pelo início da viagem, repassando na cabeça o que deveríamos fazer até pegar o ônibus e com receio de estar esquecendo alguma coisa. Estava com um pouco de medo, com aquele frio na barriga de quem está vê que está chegando sua vez na fila da montanha russa.

Um ano depois da idealização da viagem, finalmente chegou a hora de partir. Depois de meses testando os equipamentos nos alforjes, decidindo o que levar e o que descartar, depois de deixar tudo organizado, chegou o grande dia. E não é que estávamos atrasados? Mesmo depois de tanto arrumar, aconteceu aquilo que não queríamos: ter que arrumar coisas em cima da hora. Estávamos almoçando quando o frete chegou. Largamos os pratos de comida no meio, terminamos de fechar a última caixa, Daniel pegou o tênis para calçar e viu que estava sem cadarço. Continuou descalço mesmo. Levamos tudo para o caminhão, conferimos se estava tudo lá e… pausa para despedida.

Eveline - Pela Vida AforaChegou a parte mais difícil da saída. E parece que tudo mudou de dimensão. O abraço foi mais apertado, o olhar foi mais profundo, o silêncio foi um grito de amor puro. Ali, eu tive a sensação de que o amor estava emanando ao nosso redor, e que estava tudo certo, era só seguir em frente, com o coração no comando.

 

Um anjo veio me dizer…

Como tínhamos muita bagagem para levar no ônibus, chamamos um senhor para fazer um frete e nos levar até a rodoviária. Entramos no caminhão, Eveline chorando, Daniel tentando colocar o cadarço no tênis. Fomos conversando com o seu Brás, motorista do caminhão que se mostrou um amor de pessoa. Ele foi perguntando onde iríamos, respondíamos que a gente ia viajar pela América do Sul. Mas estávamos relutantes em comentar sobre como iríamos fazer isso. Porque já esperávamos uma desaprovação dizendo que era loucura e muito perigoso. Esse era o tipo de resposta que estávamos acostumados a receber. Naquele momento, era tudo o que não queríamos ouvir.

Mas depois acabamos contando que iríamos de bicicleta e que iríamos devagarinho. Mal acreditamos na reação dele:

Seu Brás: Aí eu respeito!

Disse o senhor do alto de seus sessenta anos. E começou a nos dizer cada coisa linda! Disse que devemos ir em busca de uma vida para ser vivida, com momentos bons e ruins. Que durante a viagem, inevitavelmente, as coisas poderiam sair um pouco do planejado e que a segurança era uma ilusão porque nem dentro de nossas casas as coisas estão totalmente sob nosso controle. E que esses momentos não tão bons, acabam por ser importantes para nossa história de vida e devemos aprender a dar valor para eles também. E que tentar manter a vida sob controle, com tudo planejado é o caminho para uma vida monótona e sem sentido. E que uma vida monótona, cômoda demais era muito sem graça. Pareceu que um anjo estava ali, através do Seu Brás, veio nos falar essas palavras tão positivas e lindas para nos tranquilizar e nos dar força nesse momento de transição. Com certeza foi um momento muito especial já na saída da porta de casa.

Apesar da correria em casa, chegamos na rodoviária com bastante antecedência. Chegando lá, precisamos chamar um carregador para levar as nossas coisas do caminhão do seu Brás até a plataforma de embarque. Agradecemos a ele e, nesse momento, percebemos algo de novo: uma gratidão imensa pelo seu Brás. Uma gratidão tão grande que não era possível expressar nem com palavras, nem com gestos. Algo que acabamos sentindo diversas vezes depois, durante essas primeiras semanas da viagem.

Ozzie e Maya em uma das paradas do ônibusDesde que iniciamos a viagem, nossa atenção passou a estar o tempo todo no Ozzie e na Maya, para que estejam bem. Depois, se sobrar tempo, pensamos na gente. Antes, quando estávamos em casa eles estavam seguros, em um ambiente controlado com um portão ou uma porta sempre delimitando o espaço, conseguíamos nos organizar mais facilmente para que ficassem bem sem que precisássemos estar atentos todo o tempo. Durante a viagem é diferente, tem muitas coisas acontecendo ao redor, sem uma rotina bem definida. Mas felizmente, o comportamento deles tem melhorado bastante. A Maya, que era uma cachorrinha muito agitada, desatenta e desobediente está se tornando bem mais atenta e tranquila. Agora, raramente puxa a guia e atende quase sempre que chamamos seu nome. E o Ozzie rejuvenesceu vários anos, está mais bem-disposto, voltou a marcar território, passou a subir escadas e descer ladeiras (sem rolar).

Daniel e Eveline no ônibusEnfim, depois de esperar um pouco na rodoviária, embarcamos em uma viagem de ônibus cansativa. Saímos da rodoviária de Uberlândia às 13:30h a caminho da rodoviária de Curitiba-PR. Tínhamos tanta bagagem que ocupamos um, dos três bagageiros do ônibus só com as nossas coisas (e tudo isso vai em cima da bicicleta?). Por isso, tivemos que pagar excesso de bagagem. O Ozzie e a Maya viajaram dentro de suas bolsas de transporte e ficaram bem tranquilos durante todo o trajeto. Chegando em Curitiba, esperamos 4 horas para pegarmos outro ônibus que nos levaria até Blumenau. No total, a viagem de ônibus demorou 26 horas. E assim começou nossa aventura.

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